14 de março de 2024, El Calafate, Patagônia Argentina.
Acabo de pousar no destino mais perto da Antártica que já estive. As condições climáticas, o terreno montanhoso e congelado, poderiam me instigar a dizer que parece outro planeta, mas não gosto de tirar da Terra o mérito por ser tão surpreendente e diversa, nós é que somos pouco acostumados a vê-la de verdade.
Olhando pela janela do avião, desejei nunca me esquecer do que meus olhos estavam vendo, durante a aterrisagem, tentei estender os segundos para absorver tudo. O sol estava nascendo e a luz do amanhecer refletia no terreno árido que via pela janela, o cenário estava em tons pasteis: do marrom passando pelo laranja, rosa, lilás e o azul do céu. Esse era, ao mesmo tempo que o início de uma jornada muito sonhada pela América Latina, também a continuação de… mim. Com o coração transbordando de alegria e a certeza de estar exatamente onde eu precisava estar, pousei no extremo sul do mundo.

Oi, sou a Fer e eu vivo viajando há maior tempão. A cada dia com mais certeza que esse é, dentre tantos caminhos que podemos seguir, o melhor que eu poderia ter escolhido pra mim. Talvez o que eu tenho a compartilhar pode te instigar a buscar sair mais da sua zona de conforto e te mostrar que isso não só é possível, mas eu diria até que, necessário.
Framboesas
Cheguei em El Calafate com a segurança de quem sabe exatamente onde está, mas com a humildade de quem sabe que não sabe. Eu ficaria hospedada na casa de um desconhecido para mim, mas amigo de um amigo de um amigo (mãe se você está lendo isso, desculpa!). Esse homem chamado Juan disponibilizou seu sofá por 8 mil pesos argentinos a noite, o que na época seria o equivalente a mais ou menos R$48. Esse é de longe (e põe longe nisso) o valor mínimo que alguém pode pagar por hospedagem ali. O quintal da casa dele tinha pés de framboesa e eu cheguei bem na época de colhê-las, isso foi um bônus a parte incluso na minha estadia. Nós deixávamos o forno ligado e aberto para aquecer a casa (sim), ele tinha uma cachorra que dormia comigo, me seguia pela vila, e me dava uma parada cardíaca por esquina na hora de atravessar a rua.



Só isso, já teria valido a pena, sabe? Não sei se é possível colocar em palavras a gratidão que sinto com as portas que se abrem, com os cenários que se apresentam e a maneira como as histórias se desenrolam. Me lembro da rua da casa dele, da cachorrinha no portão, das framboesas que colhi do pé meio escondida, com medo de ele não gostar que eu estivesse as comendo. Me lembro de ficar com medo da casa explodir com o fogão ligado durante a noite para nos aquecer, mas sobrevivemos. Não sei, mas me parece que dinheiro não compra isso, sabe? De novo, não sei, mas eu diria que viajar com poucos recursos tem suas vantagens. Se esse não fosse meu caso, teria reservado pelo menos um hostel e não teria tido framboesas e a cachorrinha dormindo comigo, isso que nem mencionei as pessoas ainda.
20 de março, dia de ver icebergs e glaciares, sendo ele um dos maiores do mundo. Não sei, de novo, mas tem um trem muito específico que rola quando você olha pra um iceberg despida de si mesma. Despida do que você acredita sobre icebergs, sobre as intenções que você pensava que tinha, despida do desejo de colecionar memórias, da vontade de postar uma foto e de dar check na sua lista. Você olha, contempla, lembra de todas as vezes que você viu um numa revista, num livro de ciências, num filme e percebe, sem pressa, que dessa vez está inserida neste espaço, sentindo, provando com todos os os seus sentidos até se tornar parte daquilo por alguns instantes. Mas calma, estou me adiantando na história, teve algo muito especial que aconteceu no trajeto até ali.

Sinais
Para economizar os 12 mil pesos argentinos de ônibus (+/- 65 reais) por trajeto, decidimos ir de carona. Confesso que eu não estava muito feliz com a ideia. Eu preferia pagar e garantir que chegaria cedo e teria o dia todo para explorar o Parque Nacional dos Glaciares, do que ficar plantada na rodovia por tempo indeterminado, correr o risco de não arrumar carona e perder o dia. Tenho que dar crédito ao meu ex namorado que me convenceu a arriscar. Para minha surpresa, em não mais que alguns minutos, um carro parou para nós, e não foi qualquer carro. Foi o @jordentually. Eu confesso também que não sou muito de ‘pagar pau’ pra influenciadores, eu vejo todos como pessoas comuns, mas que fazem coisas interessantes e que podem me inspirar ou trazer insights de como trazer isso pra minha realidade, se assim eu quiser. E isso não foi diferente em relação ao Jorden. Sigo ele desde 2018 talvez, ou por aí. Sei que ele vive um estilo de vida muito semelhante ao que eu acredito e dá dicas de experiências legais. Acontece que, do nada, era justo ele estava nos dando carona até o parque nacional. Não só ele, mas também na companhia do @parisexplorer, um influenciador de Paris, o qual eu não conhecia até então. Os dois estavam indo para Antártica e haviam feito uma escala em El Calafate para produzir conteúdo. Foi muito louco pra mim, encontrá-los ali logo nos primeiros dias da minha viagem. Apesar de eu nunca ter tido a intenção de me tornar influenciadora, me identifiquei muito, pois ambos trabalham e vivem de viagens, algo que eu também buscava, mesmo que de uma forma diferente. E, para completar, eles estavam de ida pra Antártica, um lugar que quase não ouso sonhar porque parecia impossível. Recebi esse encontro como um sinal do Universo, confirmando o que eu já sabia: eu estou exatamente onde devo estar, caminhando no meu ritmo, indo como posso, e confiante que o caminho se abrirá no tempo certo. Me senti abraçada, cuidada e amada por uma Força a qual não entenderemos jamais, mas que sabe de tudo. Claro que não foi porque tinha visto eles e sim porque o que eles vivem representa muito pra mim. Fomos conversando o caminho inteiro e o Jorden me deu a dica de como fazer para chegar na Antártica gastando quase nada. E sim, eu sei dos impactos ambientais do turismo nessa região, não falei que eu estou indo ou que de fato irei algum dia, mas descobrir que é possível foi algo bem interessante pra mim. A melhor parte é que eu contei pra minha analista que o encontrei, assim como falei dos outros encontros que aconteceram nas cidades seguintes (cenas dos próximos capítulos) e ela, como a excelente psicanalista Junguiana que é, me fez olhar para os símbolos. O que são esses encontros? O que essa(s) pessoa(s) representam para mim? O que esse(s) encontro(s) me conta(m) sobre o meu inconsciente? Ela é sempre cirúrgica, amo de paixão. E viajar é uma ferramenta muito poderosa de autoconhecimento, por isso, vá viajar!

Glaciar
Chegamos no Parque Nacional dos Glaciares. Mas não sem antes nos encantar com o caminho até ali, cheio de lagos de água azul turquesa cercados de montanhas nevadas. Não há palavras para descrever, mas eu tentarei usá-las ao meu favor para essa missão. O fôlego acaba a partir dos primeiros metros rodados dentro do parque, onde podemos ver os lagos, rios, e neles, icebergs. Poucas coisas nessa vida me fazem tão feliz quanto essa sensação. A de estar viva, vivendo, descobrindo coisas novas e de frente a algo que só pode ser obra de alguém muito superior a nós. Essas coisas não são pra ser vistas só com os olhos da cara, tem que ter um sexto sentido para entender a magnitude do que se está contemplando. Caso contrário, você pode ver, pode achar bonito, mas não terá absorvido por completo. E por um lado, está tudo bem também. Acho que cada um dá a importância que quiser. Mas foi através de permitir que essas experiências entrem, ocupem grandes espaços dentro de mim e me transformem, que sigo me tornando a minha melhor versão a cada uma delas. Eu aposto que você só tem a ganhar ao se permitir.




No dia seguinte voltamos ao Parque Nacional dos Glaciares, dessa vez para fazer um passeio que nos levaria a tocar no glaciar, beber licor com gelo do glaciar e entender mais sobre a história dessa formação magnífica da Era do Gelo. Me lembro de ficar completamente chocada ao estar tão perto a ponto de tocar em icebergs gigantescos e no próprio glaciar. Me lembro de como o vento doía, cortava, mas que só tornava tudo mais cru e especial. Lembro-me de, ao final, sentar entre o bosque e o glaciar, onde todos ficamos em silêncio para apreciar o som mais fascinante de todos: “trovoadas”, mas que na verdade era o gelo se partindo lá longe e ecoando até nós. Me lembro também de ter uma experiência quase mística, uma gratidão sem tamanho pelo Universo ser tão abundante e amoroso. Se um dia voltaremos para Quem criou tudo isso, não tem como ser menos que perfeito. É o paraíso, é só paz. Apenas.




Esse era apenas o começo de um ano percorrendo a América Latina. A aventura pela Patagônia estava só começando, e a partir dali, cada momento se tornaria ainda mais emocionante. Foi também o primeiro encontro com pessoas que admiro, o que recebi como um sinal claro de que estava no caminho certo.
Toda a jornada pela Patagônia foi inesquecível, talvez a mais especial de todas. Essa é só a primeira parte e daqui para frente, só melhora!
Se quiser conversar sobre essa história, me chama no Instagram @ferfoggetti. Vou adorar trocar figurinhas! Até a próxima!