Pular para o conteúdo

Monte Roraima: frio de altitude, não de estação

O Monte Roraima tem 2-5°C à noite o ano todo, mas junho-agosto é época chuvosa. Saiba quando ir para viver o frio do tepui em condições seguras.

Por Time TripMundão

Às 5h da manhã, o Monte Roraima no frio mostra sua face mais honesta: o platô some na neblina, o termômetro marca 2°C e os cozinheiros Pemón já preparam o café que vai aquecer as mãos antes da caminhada. Você está no estado mais quente do Brasil, a 2.810 metros de altitude, enquanto Boa Vista registra 38°C lá embaixo. A diferença é toda vertical, e ela não muda com o calendário. Quem planeja ir "no inverno brasileiro" está escolhendo, sem saber, exatamente a pior época.

Neblina ao amanhecer no platô do Monte Roraima — formações rochosas dos 'hotéis' em silhueta contra o céu

Por que visitar o Monte Roraima no frio

O Monte Roraima tem temperaturas entre 10°C e 20°C durante o dia e próximas de 0°C à noite, em qualquer mês do ano. O frio aqui não é de estação: é de altitude. O topo do tepui fica a 2.810 metros acima do nível do mar, e essa diferença existe em dezembro tanto quanto em julho.

Antes de qualquer planejamento, o aviso mais importante deste artigo:

O erro mais caro de planejamento para o Roraima

Junho, julho e agosto são os meses mais chuvosos da região. Trilhas enlameadas, rios Tek e Kukenan com nível imprevisível para travessia e visibilidade quase nula no topo por dias seguidos. Expedições são canceladas ou forçadas a retornar antes de chegar ao platô. Não é quando ir ao Roraima, independente do apelo de "curtir o inverno brasileiro".

A melhor época para combinar o frio de altitude com condições seguras de trilha é de novembro a março. Período seco, céu limpo, rios em nível previsível. O frio da madrugada permanece, você não abre mão de nada nesse sentido. Para entender como o clima varia mês a mês, o artigo melhor época para visitar o Monte Roraima tem os dados detalhados.

O que o frio de altitude transforma na experiência é concreto. Às 5h, a neblina cobre o platô inteiro. Quando o sol aparece, ela começa a levantar e o tepui emerge de cima das nuvens, criando o efeito de "ilha flutuante" que inspirou Arthur Conan Doyle a escrever "O Mundo Perdido". Os cristais de quartzo do Vale dos Cristais ficam cobertos de condensação. O sapo preto Oreophrynella quelchii, espécie endêmica encontrada exclusivamente neste platô, circula pelo terreno rochoso. O silêncio a 2.700 metros, sem sinal, sem outro humano além do grupo, é parte do que você compra com esta expedição.

Na época seca, La Ventana oferece vista de centenas de quilômetros de Gran Sabana. Os rios têm travessia segura e o Vale dos Cristais fica completamente visível, sem lama cobrindo as formações. No período chuvoso, esses mesmos pontos podem ficar inacessíveis por dias inteiros.

Geada no topo é plausível nas madrugadas de inverno astronômico, em altitude de 2.810 metros. Mas esse período coincide com a época chuvosa, tornando-o irrelevante para o planejamento. O que você vai sentir de novembro a março são noites de 2-5°C que exigem preparo real.

Temperaturas no topo: 10-20°C durante o dia, 2-5°C à noite. Registros próximos de 0°C em madrugadas mais frias. Baseado em relatos de expedições 2022-2026.

Roteiro da expedição: fases e momentos no frio

Não é um roteiro de fim de semana. São 7 a 10 dias de trilha mais 2 a 3 dias de deslocamento, totalizando 9 a 12 dias e entre 90 e 120 km percorridos. A estrutura abaixo é o mapa mental de quem quer chegar ao topo sem surpresas.

Fase 1 (dias 1-2): logística e cruzamento de fronteira

O ponto de partida é Boa Vista, única opção de aeroporto da região (BVB). De lá, aproximadamente 220 km de carro até a fronteira em Pacaraima, cerca de 3 horas. Do lado venezuelano fica Santa Elena de Uairén, base logística da expedição.

No caminho, parada obrigatória em São Francisco de Yuruani para retirar a autorização do INPARQUES, órgão venezuelano responsável pelo Parque Nacional Canaima. De Santa Elena até a comunidade indígena de Paraitepuy, ponto de início da caminhada, são mais 90 km de estrada de piçarra em carro 4x4, cerca de 2 horas. O pernoite antes do início da trilha costuma ser em Santa Elena.

O dado que surpreende quem não pesquisou antes: toda a trilha está em território venezuelano, dentro do Parque Nacional Canaima. O Parque Nacional do Monte Roraima brasileiro tem 116.000 hectares, mas o acesso ao topo pela Rampa só existe pelo lado venezuelano, via a comunidade Pemón de Paraitepuy. Essa informação é crítica para o planejamento.

Fase 2 (dias 2-4): aproximação pela Gran Sabana

Os primeiros dias de caminhada são pela savana aberta. O sol da Gran Sabana é intenso, e protetor solar e hidratação são tão importantes quanto a roupa de frio que vem mais adiante. Os tepuis aparecem no horizonte desde o primeiro dia, incluindo o Kukenan, companheiro de expedição do Roraima. No segundo dia, travessia do Rio Tek e acampamento. No terceiro, Rio Kukenan e acampamento na base do tepui.

Em novembro a março, os rios têm nível seguro e previsível. Na época chuvosa, essa previsibilidade desaparece e as travessias podem ser impossíveis.

Fase 3 (dia 4): La Rampa

A Rampa é o único acesso ao topo, a mesma rota da primeira expedição registrada, de Im Thurn e Perkins em 1884. É o dia mais curto em quilômetros, mas o mais exigente fisicamente: floresta densa, raízes, troncos úmidos, ganho de altitude constante. No meio da subida, uma cachoeira marca o ponto em que o frio começa a se instalar de verdade, conforme a altitude aumenta. A partir daqui, a vestimenta de frio deixa de ser "item de noite" e vira necessidade imediata.

Trekkers descendo La Rampa na neblina da manhã, vegetação úmida e raízes em primeiro plano

Fase 4 (dias 5-7+): o topo

A temperatura nas madrugadas do platô fica entre 2°C e 5°C. Os "hotéis", formações rochosas naturais que funcionam como abrigo do vento, são onde os grupos acampam e se organizam para os dias de exploração. O platô tem cerca de 31 km² e os dias no topo são organizados por destinos: La Ventana, Vale dos Cristais, Marco Tríplice Fronteira, El Fosso, Jacuzzis.

A regra para La Ventana: chegar antes das 6h. Saída no escuro, lanterna de cabeça obrigatória. A neblina encobre a vista ao longo da manhã quase sem exceção. Quem chega depois, na maioria dos dias, não vê o que foi até lá ver. A temperatura nesse horário é de 3-6°C com vento constante: roupa completa, sem negociação.

O dia do Vale dos Cristais e Marco Tríplice Fronteira é o mais longo, aproximadamente 18 km. O Marco Tríplice é o único ponto do planeta onde Brasil, Venezuela e Guiana se encontram no mesmo lugar.

Para dias de neblina densa no topo (e eles acontecem mesmo na época seca): El Fosso tem galerias subterrâneas protegidas, com quedas d'água e piscinas internas. Uma caverna no platô abriga colônias de aves guácharos, com escuro e silêncio absolutos. Os labirintos dos "hotéis" de pedra têm corredores e câmaras que ocupam horas de exploração.

Fase 5 (dias 8-12): descida e retorno

A descida percorre a mesma rota em sentido inverso. De volta a Santa Elena, o descanso antes do retorno a Boa Vista é parte natural da recuperação. Os dias finais na capital de Roraima são quando a gastronomia regional entra com força.

Experiências que só fazem sentido no frio

Mirantes que exigem a madrugada

La Ventana é o mirante mais conhecido do tepui: vista da parede leste do Roraima, do tepui Kukenan e da floresta da Guiana abaixo. Mas tem um prazo de validade diário. A neblina encobre a vista ao longo da manhã quase sem exceção. Chegar antes das 6h, no escuro, com lanterna de cabeça, não é sugestão: é a única forma de garantir a vista. A 3-6°C e com vento, a roupa de montanha não é precaução, é necessidade fisiológica.

O Marco Tríplice Fronteira, onde você está simultaneamente em Brasil, Venezuela e Guiana, está na mesma caminhada de aproximadamente 18 km que inclui o Vale dos Cristais. Dois destinos num dia longo, o mais exigente do roteiro no topo.

Água gelada que não é terma

As Jacuzzis Naturais são uma sequência de poços com água cristalina, tons amarelados pela sedimentação de quartzo, paredes de rocha cobertas de cristais. A temperatura da água fica em torno de 5-10°C.

Pule isso se você espera água morna ou uma experiência de termas. As Jacuzzis são geladas. Quem entra, entra por escolha consciente de nadar em água de montanha próxima à temperatura de geladeira. É exatamente esse o ponto.

El Fosso vai além: buraco natural com quedas d'água e galerias subterrâneas onde se nada em piscinas ainda mais frias dentro da rocha. Um dos pontos mais fotogênicos e menos acessíveis do roteiro.

Jacuzzis Naturais no topo do Monte Roraima — poços de água cristalina com cristais de quartzo visíveis nas bordas e paredes

O calor que importa: alimentação no acampamento e em Boa Vista

No acampamento, os cozinheiros Pemón contratados pelas agências preparam café da manhã, almoço e jantar todos os dias. Relatos de expedições descrevem as refeições como fartas. Há registro de feijoada servida em acampamento no topo em expedição de abril de 2026. Vegetarianos e veganos precisam avisar a agência com antecedência: as opções existem, mas dependem de comunicação prévia.

Este não é um destino de gastronomia de inverno serrana. O aconchego é o acampamento com fogareiro, a culinária indígena e 2 bilhões de anos de geologia ao redor. Não tem paralelo.

Em Boa Vista, antes e depois da trilha, a gastronomia regional entra de verdade. O Restaurante Riu e o Recanto da Peixada servem damurida: ensopado indígena quente e picante com tucupi preto, pimenta e cariru, o prato certo para recuperar depois da expedição. O Mercado Municipal São Francisco é o endereço para café da manhã com tapiocas, paçoca de carne de sol e mungunzá. Para orientação completa na cidade, veja o que fazer em Boa Vista antes e depois da expedição.

O que vestir e levar

O erro mais comum: chegar ao Roraima com roupas de verão porque "é no Norte". O topo do tepui não funciona com a lógica climática do estado. Boa Vista pode estar a 38°C enquanto o platô está a 2°C. São dois mundos separados por altitude, não por latitude.

O sistema de camadas para esta expedição:

  1. Segunda pele térmica (calça + blusa) — a peça mais importante de toda a mochila. Imprescindível para as noites de 2-5°C e para La Ventana antes das 6h.
  2. Fleece ou soft shell — camada de isolamento para as manhãs frias dentro dos "hotéis" de pedra.
  3. Corta-vento impermeável — a neblina constante no topo molha qualquer roupa não impermeável, mesmo sem chuva propriamente dita.
  4. Touca e luvas — abaixo de 5°C é frio de verdade, no Brasil ou em qualquer lugar.
  5. Bota impermeável com solado de alta aderência — para as manhãs geladas no platô, as pedras escorregadias de La Rampa e as travessias dos rios Tek e Kukenan.

Dica operacional confirmada por fontes de campo: meias de algodão têm melhor aderência nas pedras molhadas das travessias de rio. O problema é que demoram horas para secar. A solução: 2-3 pares de meias sintéticas de secagem rápida para uso geral, mais 1 par de algodão reservado exclusivamente para as travessias dos rios.

Itens que fazem diferença além da roupa: bastão de trekking (La Rampa mais as pedras do platô), lanterna de cabeça com pilhas extras (La Ventana no escuro) e filtro ou pastilha purificadora de água. Capa de chuva é obrigatória mesmo na época seca: garoa e neblina são constantes no topo independente do mês.

As agências normalmente fornecem barracas e equipamentos de camping. Confirme a lista no momento da contratação para não duplicar peso nem deixar faltar nada essencial.

Dicas práticas

Reserve com 3 a 6 meses de antecedência

Novembro a março é a época mais procurada. Expedições têm número mínimo e máximo de participantes, e os grupos nos meses secos lotam rápido. Quem tenta fechar viagem com 1 mês de antecedência para dezembro ou janeiro costuma encontrar vagas esgotadas.

O custo real da expedição

Pacotes de agências brasileiras especializadas partem de R$8.300 a R$8.450 por pessoa, cobrindo toda a logística terrestre a partir de Boa Vista ou Santa Elena, sem aéreo.

A passagem para Boa Vista (BVB) a partir de São Paulo ou Brasília fica entre R$1.000 e R$3.000 ida e volta, dependendo da antecedência e da época. Com o aéreo, o total realista fica entre R$9.500 e R$12.000 por pessoa. Agências venezuelanas em Santa Elena costumam oferecer custo menor, mas as condições de contratação direta precisam ser verificadas com cuidado antes de fechar qualquer reserva. Para análise detalhada por categoria, veja quanto custa a expedição ao Monte Roraima.

Valores de pacotes referentes a 2025-2026. Confirme com a agência antes de reservar. Passagens aéreas variam conforme antecedência e origem.

O risco que nenhuma agência vai destacar voluntariamente

Toda a trilha, do início em Paraitepuy até o topo e a descida, está em território venezuelano, dentro do Parque Nacional Canaima. A fronteira Pacaraima/Santa Elena de Uairén fechou durante a pandemia e pode fechar por razões políticas com pouco aviso prévio. Antes de fechar a reserva: verifique as condições da fronteira junto ao Ministério das Relações Exteriores e pergunte diretamente à agência qual é a política de reembolso em caso de fechamento.

As condições de acesso pela fronteira Brasil-Venezuela podem mudar sem aviso prévio. Verifique com a agência e junto ao Ministério das Relações Exteriores antes de fechar a reserva.

Autorizações e guia obrigatório

Em pacote de agência: zero burocracia. A operadora cuida de tudo.

Para quem organiza por guia direto: são necessárias autorização do ICMBio em Pacaraima e do INPARQUES em São Francisco de Yuruani. Os fluxos detalhados disponíveis são de anos anteriores e podem ter mudado. Consulte diretamente com agências especializadas para o processo atualizado em 2026.

Em nenhum cenário é possível fazer o trekking sem guia credenciado. É proibido pela legislação venezuelana que rege o Parque Nacional Canaima, sem exceção.

Se você ainda está decidindo entre contratar uma agência brasileira ou ir por guia venezuelano direto — e quer entender o passo a passo de deslocamento, a lista de documentos e as diferenças práticas entre as duas rotas —, o guia completo do Monte Roraima cobre tudo isso com mais espaço do que cabe aqui.

Processos ICMBio/INPARQUES sujeitos a alteração. Agências especializadas cuidam de toda a burocracia nos pacotes. Quem vai por guia direto deve consultar os órgãos diretamente para o fluxo atualizado em 2026.

Preparo físico

Moderado a elevado. Não é necessário ser atleta, mas é necessário conseguir caminhar 15 a 20 km por dia com mochila, por vários dias consecutivos, em terreno irregular. Um programa de treino de 3 a 6 meses antes da expedição faz diferença concreta na qualidade da experiência no topo.


Conclusão

O frio do Monte Roraima não tem estação. Existe porque o platô fica a 2.810 metros de altitude, e essa altitude não muda com o calendário. As melhores condições de acesso são de novembro a março: não porque o frio aumenta, mas porque a chuva diminui e a trilha fica viável.

São 9 a 12 dias totais, R$9.500 a R$12.000 por pessoa com aéreo, cruzamento de fronteira com a Venezuela e guia indígena obrigatório. Quem aceita essas condições tem acesso a um platô com 2 bilhões de anos de história geológica que não tem equivalente em nenhum outro lugar do Brasil. O guia completo do Monte Roraima tem tudo para montar o planejamento detalhado da expedição.

Conheça mais lugares