Monte Roraima: Trilhas e Cachoeiras 2026
Guia técnico das trilhas e cachoeiras do Monte Roraima: dados por segmento, tabela de dificuldade, piscinas geladas a 2.700 m e tudo sobre a expedição de 90–120 km.
As trilhas do Monte Roraima começam com barulho de água que você não consegue ver: a cachoeira Passo das Lágrimas atravessa a floresta fechada da Rampa antes mesmo de aparecer, e num trecho da subida você cruza por dentro dela, com rocha úmida sob os pés e raízes emergindo do chão em todas as direções. São 7 a 10 dias de expedição que passam inteiramente pela Venezuela, num tepui que é tecnicamente território brasileiro, mas só tem acesso pelo outro lado da fronteira.
Melhores trilhas de Monte Roraima
As principais rotas no Monte Roraima incluem a subida pela Rampa (único acesso ao platô, desnível de aproximadamente 1.200 m), o circuito do Vale dos Cristais e Tríplice Fronteira (cerca de 18 km no platô), a extensão ao Pico Maverick (2.810 m, ponto mais alto do tepui) e a rota da Proa (exclusiva para expedições de 9 dias ou mais). Todas são segmentos de uma mesma expedição de 90 a 120 km no total. Nenhuma existe como trilha isolada.
Ao contrário da Chapada Diamantina, onde você escolhe a trilha da semana, no Roraima você contrata uma expedição completa e cada dia é um segmento fixo desse roteiro. A ordem é determinada pela logística de dois países, dois parques nacionais e uma comunidade indígena que fornece os guias obrigatórios. Planejar o Roraima é planejar uma expedição, não uma trilha de fim de semana.
La Rampa
La Rampa é o único caminho de acesso ao topo do tepui, o mesmo percurso da primeira ascensão registrada em 1884, e por ele passa toda expedição ao Roraima.
- Distância: aproximadamente 8–10 km (base ao platô)
- Desnível: aproximadamente 1.200 m
- Dificuldade: 4/5
- Tempo estimado: 4 a 6 horas
- Guia obrigatório: sim
- Melhor época: novembro a março
O terreno é úmido durante todo o ano, inclinado desde o início, com troncos e raízes atravessando o caminho em boa parte da subida. A floresta fecha completamente antes do trecho mais técnico. O momento que nenhum relato deixa de mencionar é a travessia da cachoeira Passo das Lágrimas: você cruza dentro da queda, com água caindo diretamente sobre você, sem alternativa de contorno. É o ponto mais exigente emocionalmente da expedição, e o que fica na memória.
É o dia mais curto em quilometragem de toda a expedição e o mais duro fisicamente. Quem subestima a Rampa por causa da distância costuma ter surpresa.
Circuito do Vale dos Cristais e Tríplice Fronteira
O "dia grande" de qualquer expedição ao Roraima. O circuito inclui o Vale dos Cristais, La Ventana, El Fosso e o marco da Tríplice Fronteira, cobrindo aproximadamente 18 km dentro do platô — o trecho de maior distância em um único dia de toda a expedição.
- Distância: aproximadamente 18 km (no platô)
- Dificuldade: 3/5
- Tempo estimado: 8 a 10 horas
- Guia obrigatório: sim
- Melhor época: novembro a março
O Vale dos Cristais é coberto de formações pontiagudas de quartzo espalhadas pelo solo, com cristais nas fendas e abismos. A Tríplice Fronteira tem um marco piramidal onde você pode estar em três países ao mesmo tempo: Brasil, Venezuela e Guiana Inglesa.
Dica prática: leve almoço empacotado. Não existe ponto de parada com alimentação em nenhum trecho desse circuito. Sair sem comida significa caminhar 8 a 10 horas com o que estiver na mochila.
La Ventana exige atenção específica: é o mirante mais conhecido do tepui, com vista para o Kukenan e a savana abaixo. A neblina encobre a vista ao longo do dia, então a saída tem que ser antes das 6h da manhã. Depois disso é tudo ou nada.
Pico Maverick (2.810 m)
O pico mais alto do tepui fica em território venezuelano e é acessado como extensão a partir do acampamento no platô.
- Extensão: aproximadamente 4 a 6 horas adicionais
- Altitude: 2.810 m
- Dificuldade: 3/5
- Guia obrigatório: sim
- Melhor época: novembro a março
Em dias com boa visibilidade na estação seca, o panorama das savanas da Gran Sabana abaixo justifica o esforço extra. É o ponto mais alto que se alcança a pé na expedição.
Rota da Proa (somente expedições de 9 dias ou mais)
A Proa é a extremidade norte do tepui, em território da Guiana, e aparece em praticamente toda foto aérea do Roraima como o cartão-postal do monte. O problema: a maioria dos roteiros de 7 dias não inclui esse trecho.
- Extensão: aproximadamente 3 horas adicionais a partir do acampamento principal
- Dificuldade: 4–5/5
- Terreno: irregular, tecnicamente mais exigente que o circuito padrão
- Guia obrigatório: sim
Se você tem 7 dias, não vai ver a Proa, e está tudo bem. O roteiro padrão já é completo, com Vale dos Cristais, Tríplice Fronteira, Pico Maverick e as Jacuzzis Naturais. Quem quiser incluir a Proa precisa contratar especificamente um roteiro de 9 dias ou mais e confirmar esse ponto antes de assinar o pacote.
Cachoeiras e piscinas naturais do Monte Roraima
As formações hídricas do Roraima não têm equivalente no Brasil. Não são cachoeiras numa floresta tropical de baixa altitude: são piscinas e quedas esculpidas em rocha de quartzo a mais de 2.700 m. A cor da água, o frio e o contexto geológico formam uma combinação que não existe em nenhum outro ponto do país.
#1Jacuzzis Naturais
Sequência de poços esculpidos em quartzo com água de tom dourado-amarelado por sedimentos minerais. Temperatura em torno de 5 a 10°C. O frio choca, mas nenhum relato registra arrependimento. Visitadas no Dia 5 ou 6 da expedição, dentro do platô.
As Jacuzzis Naturais são o ponto mais fotografado e comentado de qualquer expedição ao Roraima, mencionadas em 11 dos 44 artigos levantados na pesquisa. Os cristais ao redor dos poços tornam a cena visualmente única. A temperatura da água é real: quem vai sem preparo toma o choque. Mas é um dos momentos de parada mais memoráveis de toda a expedição.
#2El Fosso
Buraco natural no platô com queda d'água que desce para caverna subterrânea, galerias e piscinas de água cristalina. A descida exige passar pelas colunas internas das galerias. Espaço fechado: não é indicado para quem tem claustrofobia.
El Fosso está incluído no circuito do dia da Tríplice Fronteira, que já é o dia mais longo da expedição. Chegar às piscinas exige descer pelas colunas internas das galerias: o espaço é fechado e a descida não tem saída alternativa. Um dos pontos mais fotogênicos do roteiro clássico e também um dos menos acessíveis.
#3Catedral / Salto Catedral
Formações rochosas com cachoeira interna, labirintos, piscinas naturais e hidromassagem gelada dentro de gruta coberta de musgos. Não está no roteiro padrão de todas as agências: confirme a inclusão antes de contratar.
A Catedral faz parte do chamado Circuito Místico Catedral, incluído no roteiro de agências específicas como Pisa Trekking e Desviantes. Antes de contratar, confirme explicitamente com a agência se esse ponto consta no itinerário.
Passo das Lágrimas: durante a subida pela Rampa, você atravessa uma cachoeira no meio da trilha. Não é um destino separado nem um ponto de banho, é uma travessia obrigatória por dentro da queda. Altura não confirmada nas fontes consultadas. É descrito em múltiplos relatos como o momento mais marcante emocionalmente de toda a expedição.
Valores aproximados baseados em fontes de 2023–2026. Confirme condições e inclusões de cada ponto com a agência antes de reservar.
Roteiros por nível de dificuldade
A escala de dificuldade do Roraima é calibrada para expedição multi-dia, não para trilha de um dia. "Moderado" aqui significa cruzar rios frios, caminhar entre 8 e 10 horas por dia em terreno irregular e dormir em barraca por até 10 noites consecutivas. Quem faz trilhas de um dia precisa de preparação física específica antes de contratar qualquer expedição ao Roraima.
| Segmento | Distância | Tempo | Destaque | |
|---|---|---|---|---|
| Moderada (3/5) | Aproximação pela Gran Sabana (Paraitepuy › Rio Tek) | ~20 km | Dias 1–2 | Planície aberta, sol intenso, pouca sombra |
| Moderada (3/5) | Rio Tek › Rio Kukenan / Base | ~20 km | Dias 2–3 | Travessias de rio frio, vegetação mais densa |
| Difícil (4/5) | La Rampa (Base › Platô) | ~8–10 km | Dia 4–5 / 4–6h | Trecho mais exigente, desnível ~1.200 m, terreno úmido |
| Moderada (3/5) | Circuito do platô (Vale dos Cristais + Tríplice Fronteira) | ~18 km | Dia 5–6 / 8–10h | Dia mais longo em distância |
| Moderada (3/5) | Pico Maverick | +4–6h | Extensão opcional | Ponto mais alto, 2.810 m |
| Difícil (4–5/5) | Rota da Proa | +3h, terreno irregular | Somente 9+ dias | Não incluída no roteiro padrão |
Todos os segmentos exigem guia indígena credenciado da comunidade Pemón de Paraitepuy, sem exceção. Não existe acesso autônomo a nenhum trecho.
O que levar
A primeira distinção que todo guia genérico ignora: boa parte do equipamento já está no pacote contratado. Saber o que a agência fornece evita carregar peso extra e gastar com material duplicado.
O que a agência normalmente fornece:
- Tendas e estrutura de acampamento
- Cozinheiro e alimentação durante toda a expedição
- Carregador de banheiro (barraca com sistema de cal para dejetos, obrigatório no parque)
- Carregadores pessoais da comunidade Pemón, que carregam até 15 kg por pessoa (opcional, com custo adicional)
O que o viajante precisa levar:
Roupas e calçados são o item mais crítico. As noites no platô chegam próximas de 0°C, os dias ficam entre 10 e 20°C. A amplitude térmica é maior que em qualquer outra trilha brasileira. Roupa térmica e impermeável não são opcionais.
Calçado certo para as travessias de rio
Tênis de corrida convencional não tem aderência em pedra molhada. Para cruzar os rios Tek e Kukenan, leve sandália com sola de borracha ou sapato de neoprene. Uma meia de algodão usada por dentro da sandália também funciona bem para aderência, segundo relatos de trilheiros experientes que percorreram esse trecho.
Demais itens obrigatórios:
- Produtos biodegradáveis: sabonete, shampoo e protetor solar. É regra do parque, não sugestão. Produtos convencionais resultam em multa e possível retirada da trilha.
- Kit de purificação de água: a água é captada dos rios durante todo o percurso. Hidroesteril ou pastilha de cloro são recomendados especialmente nos acampamentos do platô.
- Headlamp com pilhas extras: saídas antes das 6h para La Ventana são comuns e a trilha no platô não tem iluminação.
Sobre drone: há cobrança de taxa para uso de drone no Parque Nacional Canaima. O valor não estava claro nas fontes consultadas (informação de julho de 2025). Antes de levar o equipamento, confirme com a agência quais são os procedimentos e custos na entrada do parque venezuelano.
Guias e operadoras
O guia indígena da comunidade Pemón de Paraitepuy é obrigatório por lei venezuelana. Isso vale para qualquer nível de experiência em montanhismo: não existe acesso autônomo ao Monte Roraima.
Há dois modelos de contratação:
Agência brasileira (pacote completo): inclui logística de Boa Vista a Paraitepuy e retorno, autorizações junto ao ICMBio e ao INPARQUES venezuelano, guia indígena, cozinheiro, carregadores e alimentação. A faixa de preço por pessoa fica entre R$ 4.800 e R$ 8.450, dependendo da agência e da duração do roteiro.
Agências brasileiras confirmadas na pesquisa: Roraima Adventures, Pisa Trekking, Clube Native, Lugarejos, PlanetaEXO e Desviantes.
Agência venezuelana em Santa Elena de Uairén (menor custo): o viajante chega por conta própria à cidade-base venezuelana, a aproximadamente 220 km de Boa Vista, e contrata o guia localmente. O custo é significativamente menor que os pacotes brasileiros. Pesquise diretamente com agências locais de Santa Elena de Uairén antes de viajar para ter uma estimativa atual.
Gorjetas para guias e carregadores são prática esperada ao final da expedição. O valor não é padronizado: pergunte à agência ao contratar.
Quem passa por Boa Vista antes do trekking vale conferir o que fazer e comer em Boa Vista antes do trekking, a cidade-base de toda expedição brasileira ao Roraima. Para o processo completo de autorizações, documentação e logística, veja o guia completo do Monte Roraima.
Valores aproximados baseados em fontes de 2023–2026. Confirme antes de reservar. Verifique as condições da fronteira Brasil-Venezuela antes de confirmar datas com a agência.
Dicas de segurança
Não existe resgate rápido no Roraima
Você está a múltiplos dias de caminhada do hospital mais próximo durante toda a expedição. Evacuação de emergência é logisticamente complexa e cara. Seguro viagem com cobertura para atividades de aventura e para a Venezuela não é opcional: é pré-requisito para fazer essa expedição com responsabilidade.
Fronteira Venezuela: todo o trekking passa por território venezuelano. A fronteira Brasil-Venezuela fechou durante a pandemia e reabriu em abril de 2022, mas está sujeita a condições que podem mudar sem aviso. Confirme o status atual com a agência antes de fechar qualquer data.
Clima: a temperatura no platô à noite pode chegar próximo de 0°C e a neblina é frequente especialmente à tarde, o que faz La Ventana desaparecer rapidamente. Na época chuvosa (abril a setembro), os rios Tek e Kukenan sobem com força e as travessias ficam significativamente mais arriscadas. Confirme com a agência se operam nesse período e quais condições esperar.
Sinal de celular: zero em toda a trilha e no platô. Algumas agências incluem dispositivo de comunicação via satélite (o Spot X foi mencionado em relatos da Clube Native). Verifique se está incluso no pacote antes de contratar.
Água e impacto ambiental: purificação é recomendada especialmente nos acampamentos mais altos. Nunca use produtos não-biodegradáveis nos rios. A punição é multa e retirada imediata da trilha.
Cristais: na saída em Paraitepuy há revista. Retirar qualquer material natural do Roraima resulta em multa. Não existe exceção de tamanho ou quantidade.
Fauna: o sapo preto Oreophrynella quelchii é endêmico do tepui e inofensivo. Não há relatos específicos de cobras como risco no platô, mas calçado fechado é regra para todos os trechos da trilha.
O Monte Roraima está dentro do Parque Nacional do Monte Roraima (Brasil, 116.000 hectares, gerenciado pelo ICMBio) e do Parque Nacional Canaima (Venezuela), onde fica toda a trilha. Para informações sobre como o acesso ao parque funciona na prática, incluindo documentação e autorizações, veja o guia completo do Monte Roraima.
Perguntas frequentes sobre as trilhas do Monte Roraima
O que diferencia o Roraima de qualquer outra expedição brasileira não é a altitude nem os 120 km. É que você chega guiado por indígenas Pemón que conhecem cada cristal daquele platô há gerações, atravessando dois países para pisar num terreno com 2 bilhões de anos de formação geológica. A expedição exige compromisso real: entre 10 e 12 dias fora de casa, estimativa de R$ 9.000 a R$ 12.000 com passagem aérea, zero celular e temperatura próxima de 0°C à noite.
A melhor época começa em novembro. As agências lotam no período seco e reservas com menos de 3 meses de antecedência costumam não encontrar vagas nos meses de pico, especialmente dezembro, janeiro e fevereiro. Para logística completa, documentação e custos detalhados, veja o guia completo do Monte Roraima.
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